Poderia não importar
segunda-feira, 11 de novembro de 2013
Quem morre é quem perde
- É como eu ia dizendo... - tragou o cigarro e tentou soltar a fumaça em círculos. Em vão. Nunca tinha sido bom nisso, em trinta anos fumando. - todo mundo diz "quem morre é quem perde". Só que tem aquela coisa de dizer sem pensar.
Eu olhava com atenção aqueles grandes olhos cheios da maldade da vida. Mas sabia que o meu interlocutor falava com sinceridade. Não valia boa coisa, mas da vida ele entendia. E como entendia.
- A pessoa diz que quem morre é quem perde pra ninguém chegar aí e se matar. Tá certo, tá certo. - pausou para um extenso e exagerado pigarro, cuspindo num canto qualquer como um troglodita. - Huuummmmrum, bem, mas se você parar pra pensar, perde mesmo. Perde tudo. Perde mulher, cachorro, filho. Perde de assistir o fim do campeonato e ver seu time levando aquela puta surra. Perde o dinheiro que juntou pro filho da puta que já tá saindo com sua mulher. Hahahaahhahahahahahahahahaha. Parece ser um monte de merda, mas isso aí é a vida. Perde a VIDA. A vida é essa grande porcaria aí podre que você bem sabe, compreende?
Não tinha muita vontade de argumentar sobre o que fosse. Não discordava de toda a opinião. Quem tem uma vida que não pode se orgulhar tanto, vai perdê-la. Exatamente como ele disse. Mas nunca achei que toda vida é um grande arrependimento. A pessoa em minha frente poderia não ser a mais feliz do mundo. Mas que ele teve culpa por isso, certamente teve.
- Vai ficar me encarando com essa sua cara ridícula? Heheheehehhehehehe. Eu sei que você sabe das coisas. Dá pra ver que sim. Você sabe, sabe, sabe. Se você dá um tiro nessa sua cabeça, vai perder essa merda toda que eu disse. E mais. Mais um monte de lixo. E não quero dizer que por isso não vale a pena viver. Entenda - rodava o copo de uísque com rapidez e observava o gelo derreter, como se fosse algum tipo de passatempo tão divertido que só ele entendia. - Veja. É um monte de estrume, mas é nossa vida. É o que a gente conseguiu ter. E é isso. Tem que viver. Concorda?
- Digamos que de alguma forma eu...
Fui interrompido por um soco sobre a mesa. Não foi tão forte, mas o barulho foi tão estridente que algumas pessoas no local olharam assustadas. Ou eu poderia dizer, que caçoavam da cena ridícula que presenciavam.
- É isso que eu digo. É, não é? - bateu mais duas vezes, desta vez com menos força, como se quisesse impedir qualquer continuação de minhas palavras provavelmente contrárias. E calado me mantive.
Bebeu um gole de uísque após o trago do cigarro. Engoliu e baforejou a fumaça e riu-se, como que orgulhoso depois de um grande feito.
- Agora está lá. Morto. Que grande idiota! Morto! Imbecil. Sendo comido por terra. Perdeu tudo. Palerma. Hahahaahahahahahahaha. Gostava dele, mas quer saber? Quem tem amigo morto? Pro inferno! Vou atrás do que me devia. - revirou um pouco os olhos e baixou a cabeça. Fez um barulho rouco. Por um momento achei que iria regurgitar. Deu um forte arroto e sorriu. Riu alto e seu hálito podre de álcool e tabaco tornaram o ar nauseabundo. E assim ficou. Rindo.
Levantei-me da companhia daquele estranho. E desejei estar morto a presenciar essa cena degradante. Quem morre afinal, é quem perde.
segunda-feira, 4 de março de 2013
A chuva
Este texto é para os poucos que se mantêm ao meu lado, independente da minha estação...
Hoje eu lembrei de um passado não muito distante em tempo, mas tão distante em emoções... Isso porque eu ouvi uma música. Mas não foi bem a melodia que escutava naqueles tempos que me fez recordar, e sim uma palavra de significado amplo para mim: chuva. Pode soar estranho, afinal para muitos chuva é apenas água. Às vezes tem um significado poético, normalmente ligado a lágrimas, tristeza. Mas não é isso que representa para mim neste momento. Chuva me faz lembrar de casa. Chuva me faz lembrar de todos vocês que fazem parte do meu coração, ainda que não sejam muitos - na verdade admito que sejam raros... A época em que eu ouvia "The rain song" também era a época em que a chuva significava voltar pra casa. Lembram dessa época? Não faz tanto tempo como eu disse de início... Era a época em que, ao menor indício de chuva, nós voltávamos correndo para casa. Então nos esquentávamos juntos, e nos confortávamos... Tínhamos uns ao outros, e por vezes, até conseguíamos ver a beleza escondida na chuva que caía. E eu acreditava que essa beleza existia... E quando chovia novamente, eu sabia que tinha que voltar pra casa. Eu precisava voltar, precisava do conforto para poder ver a beleza. Ali seria sempre meu lugar, nosso lugar. Agora, ao ouvir essa música, eu apenas lembro. Não posso mais voltar pra casa. Chuva não significa casa. Chuva significa caminhar sozinha. Não existe mais casa, ainda que exista a chuva para me fazer querer voltar... não há mais como voltar... não há mais para onde voltar... e eu sigo só. E a chuva ainda cai, e cada vez mais impiedosa...
Leila Soriano
Hoje eu lembrei de um passado não muito distante em tempo, mas tão distante em emoções... Isso porque eu ouvi uma música. Mas não foi bem a melodia que escutava naqueles tempos que me fez recordar, e sim uma palavra de significado amplo para mim: chuva. Pode soar estranho, afinal para muitos chuva é apenas água. Às vezes tem um significado poético, normalmente ligado a lágrimas, tristeza. Mas não é isso que representa para mim neste momento. Chuva me faz lembrar de casa. Chuva me faz lembrar de todos vocês que fazem parte do meu coração, ainda que não sejam muitos - na verdade admito que sejam raros... A época em que eu ouvia "The rain song" também era a época em que a chuva significava voltar pra casa. Lembram dessa época? Não faz tanto tempo como eu disse de início... Era a época em que, ao menor indício de chuva, nós voltávamos correndo para casa. Então nos esquentávamos juntos, e nos confortávamos... Tínhamos uns ao outros, e por vezes, até conseguíamos ver a beleza escondida na chuva que caía. E eu acreditava que essa beleza existia... E quando chovia novamente, eu sabia que tinha que voltar pra casa. Eu precisava voltar, precisava do conforto para poder ver a beleza. Ali seria sempre meu lugar, nosso lugar. Agora, ao ouvir essa música, eu apenas lembro. Não posso mais voltar pra casa. Chuva não significa casa. Chuva significa caminhar sozinha. Não existe mais casa, ainda que exista a chuva para me fazer querer voltar... não há mais como voltar... não há mais para onde voltar... e eu sigo só. E a chuva ainda cai, e cada vez mais impiedosa...
Leila Soriano
sexta-feira, 1 de março de 2013
Minha Flor do deserto
Eu queria ver a noite estrelada. Há muito tempo eu não vejo noites estreladas. Nem sem estrelas. Nem noites. Um torpe dirá: "Olhe para o céu neste momento, e verás... ". Sobriamente eu responderei: "Tens razão...". Serei parcimoniosa com minhas palavras. Os tolos vêem com os olhos, nunca entenderão sobre minhas noites estreladas. Mas de certo que não as vejo ainda que olhe para o céu, elas não estão... elas não são.
Mas eu vejo algo além do oceano, não com meus olhos, mas com minha pele, onde toca a brisa do mar. O vento sopra a areia em meus olhos, areia de um lugar distante. É lá onde eu estou. Vagando, como um nômade, pelo deserto. Ele está onde não se pode encontrar. Mas eu vejo suas dunas castanhas, sinto o cheiro da areia, amargo o castigo do sol. O vento ainda sopra a areia, que dança pelo deserto. A areia é o tempo. As imensas dunas me provam que é tempo demais. Há quanto estou vagando pelo deserto? Aqui é sempre dia. E é sempre dia da dança do tempo. Mas é tempo de partir. É tempo de buscar, e o que eu busco é a vida. No deserto a vida é o oasis. Agora sigo, não sei quantas dunas ainda virão. Quero encontrar e contemplar a minha flor do deserto, e ela retornará ao seu verdadeiro lugar, em minha alma . E quando findar minha jornada já não será eternamente dia. E eu verei a noite. E as estrelas!
Mas eu vejo algo além do oceano, não com meus olhos, mas com minha pele, onde toca a brisa do mar. O vento sopra a areia em meus olhos, areia de um lugar distante. É lá onde eu estou. Vagando, como um nômade, pelo deserto. Ele está onde não se pode encontrar. Mas eu vejo suas dunas castanhas, sinto o cheiro da areia, amargo o castigo do sol. O vento ainda sopra a areia, que dança pelo deserto. A areia é o tempo. As imensas dunas me provam que é tempo demais. Há quanto estou vagando pelo deserto? Aqui é sempre dia. E é sempre dia da dança do tempo. Mas é tempo de partir. É tempo de buscar, e o que eu busco é a vida. No deserto a vida é o oasis. Agora sigo, não sei quantas dunas ainda virão. Quero encontrar e contemplar a minha flor do deserto, e ela retornará ao seu verdadeiro lugar, em minha alma . E quando findar minha jornada já não será eternamente dia. E eu verei a noite. E as estrelas!
quinta-feira, 28 de fevereiro de 2013
Ele me ama
"Eu amo você". Um arrepio que vem da nuca e vai espalhando prazer por todo corpo através da espinha. Ele me ama, o que mais importa?
Saio de casa apressada, tenho uma entrevista de emprego e não posso me atrasar. Aí o metrô quebra. Uma onda de tristeza vai aparecendo... mas ele me ama, o que mais importa? Deixo pra lá a entrevista de emprego, "Ah, outras virão mesmo" e vou andando pelas ruas, com uma voz ecoando: "Eu amo você".
Bem, o dia não está perdido tenho outras coisas pra fazer. Tenho que entregar o livro que eu peguei emprestado há semanas na faculdade, com uma multa ultrapassando o limite da minha conta bancária. Saio correndo pra pegar o ônibus, mas sei lá quem se enfiou no meio, só sei que tropecei, caí e o livro voou longe e todos os ônibus que trafegavam ali conseguiram passar por cima dele. Foi até bonito: o livro voava de um lado para o outro e suas folhas giravam como em redemoinho. Tento praguejar e então lembro: ele me ama, o que mais importa? Dá-se um jeito. Sento na parada e espero o próximo ônibus com uma voz ecoando na cabeça: "Eu amo você."
Vinte, trinta, quarenta minutos passam. Nada. O livro não dava mais, só que a última prova do semestre, essa eu precisava fazer. Uma hora... parei de contar. Peguei o ônibus que veio lá da eternidade e fui esperançosa que desse tempo. Nem olho o relógio. Desço correndo em direção à faculdade. Cheguei e... a porta estava fechada. Um nó na garganta vai se formando, assim como lágrimas nos olhos... mas ele me ama, o que mais importa? Isso deve ter uma solução mesmo.
Decidi ir andando um bom trecho a pé, só pra ouvir mais aquela voz ecoando: "Eu amo você". Ando sorrindo como uma criança até que alguém puxa minha bolsa e leva tudo o que eu tinha, que era praticamente nada. Começo a formular um "que dia maldito..." que termina mesmo com "ele me ama, tudo está bem". Pego um ônibus qualquer, chego em casa. Tranco a porta do quarto e deito. "Eu amo você" ecoando por toda parte. Sorrio durante minutos. Vou sorrindo até que paro. Uma pontada no coração e um semblante de tristeza tomam a cena. E eu digo: "Ele me ama... mas até quando?".
Então durmo, enquanto o vento uiva em minha janela a tragédia do amor.
Saio de casa apressada, tenho uma entrevista de emprego e não posso me atrasar. Aí o metrô quebra. Uma onda de tristeza vai aparecendo... mas ele me ama, o que mais importa? Deixo pra lá a entrevista de emprego, "Ah, outras virão mesmo" e vou andando pelas ruas, com uma voz ecoando: "Eu amo você".
Bem, o dia não está perdido tenho outras coisas pra fazer. Tenho que entregar o livro que eu peguei emprestado há semanas na faculdade, com uma multa ultrapassando o limite da minha conta bancária. Saio correndo pra pegar o ônibus, mas sei lá quem se enfiou no meio, só sei que tropecei, caí e o livro voou longe e todos os ônibus que trafegavam ali conseguiram passar por cima dele. Foi até bonito: o livro voava de um lado para o outro e suas folhas giravam como em redemoinho. Tento praguejar e então lembro: ele me ama, o que mais importa? Dá-se um jeito. Sento na parada e espero o próximo ônibus com uma voz ecoando na cabeça: "Eu amo você."
Vinte, trinta, quarenta minutos passam. Nada. O livro não dava mais, só que a última prova do semestre, essa eu precisava fazer. Uma hora... parei de contar. Peguei o ônibus que veio lá da eternidade e fui esperançosa que desse tempo. Nem olho o relógio. Desço correndo em direção à faculdade. Cheguei e... a porta estava fechada. Um nó na garganta vai se formando, assim como lágrimas nos olhos... mas ele me ama, o que mais importa? Isso deve ter uma solução mesmo.
Decidi ir andando um bom trecho a pé, só pra ouvir mais aquela voz ecoando: "Eu amo você". Ando sorrindo como uma criança até que alguém puxa minha bolsa e leva tudo o que eu tinha, que era praticamente nada. Começo a formular um "que dia maldito..." que termina mesmo com "ele me ama, tudo está bem". Pego um ônibus qualquer, chego em casa. Tranco a porta do quarto e deito. "Eu amo você" ecoando por toda parte. Sorrio durante minutos. Vou sorrindo até que paro. Uma pontada no coração e um semblante de tristeza tomam a cena. E eu digo: "Ele me ama... mas até quando?".
Então durmo, enquanto o vento uiva em minha janela a tragédia do amor.
quarta-feira, 27 de fevereiro de 2013
Você nem estava lá.
Ouvindo o tic tac do relógio. Um sorriso saudoso no canto do rosto. Pensei em quando você agarrou minhas pernas e disse que aquilo seria eterno. Esse momento nunca existiu. Mas ninguém irá ousar e dizer que não.
Um sorriso prazeroso no canto do rosto. Lembrei do dia em que você tocava meus cabelos, olhando pro meu rosto e filosofando que o universo começava em meus olhos. Esse momento nunca existiu. Mas ninguém irá ousar e dizer que não.
Uma lágrima de emoção caindo de um olho. Lembrei do dia em que eu estava sentada no banco da praça, pensando na minha pequenez diante do céu azul que pairava sobre mim enquanto você dizia que eu era grande, porque o céu só existia mesmo por conta dos meus olhos. Esse momento nunca existiu. Mas ninguém irá ousar e dizer que não.
Mãos sobre a cabeça. Lembrei do dia em que você atravessou a rua e eu nunca mais te vi no meio da multidão. Esse dia existiu. Mas ninguém irá ousar e dizer que sim.
Mas eu irei ousar e dizer: nem mesmo ouvi o som da tua voz e nem soube seu nome. Você nunca esteve lá.
O relógio então parou. E junto com ele meu coração.
Um sorriso prazeroso no canto do rosto. Lembrei do dia em que você tocava meus cabelos, olhando pro meu rosto e filosofando que o universo começava em meus olhos. Esse momento nunca existiu. Mas ninguém irá ousar e dizer que não.
Uma lágrima de emoção caindo de um olho. Lembrei do dia em que eu estava sentada no banco da praça, pensando na minha pequenez diante do céu azul que pairava sobre mim enquanto você dizia que eu era grande, porque o céu só existia mesmo por conta dos meus olhos. Esse momento nunca existiu. Mas ninguém irá ousar e dizer que não.
Mãos sobre a cabeça. Lembrei do dia em que você atravessou a rua e eu nunca mais te vi no meio da multidão. Esse dia existiu. Mas ninguém irá ousar e dizer que sim.
Mas eu irei ousar e dizer: nem mesmo ouvi o som da tua voz e nem soube seu nome. Você nunca esteve lá.
O relógio então parou. E junto com ele meu coração.
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