quinta-feira, 28 de fevereiro de 2013

Ele me ama

"Eu amo você". Um arrepio que vem da nuca e vai espalhando prazer por todo corpo através da espinha. Ele me ama, o que mais importa?
Saio de casa apressada, tenho uma entrevista de emprego e não posso me atrasar. Aí o metrô quebra. Uma onda de tristeza vai aparecendo... mas ele me ama, o que mais importa? Deixo pra lá a entrevista de emprego, "Ah, outras virão mesmo" e vou andando pelas ruas, com uma voz ecoando: "Eu amo você".
Bem, o dia não está perdido tenho outras coisas pra fazer. Tenho que entregar o livro que eu peguei emprestado há semanas na faculdade, com uma multa ultrapassando o limite da minha conta bancária. Saio correndo pra pegar o ônibus, mas sei lá quem se enfiou no meio, só sei que tropecei, caí e o livro voou longe e todos os ônibus que trafegavam ali conseguiram passar por cima dele. Foi até bonito: o livro voava de um lado para o outro e suas folhas giravam como em redemoinho. Tento praguejar e então lembro: ele me ama, o que mais importa? Dá-se um jeito. Sento na parada e espero o próximo ônibus com uma voz ecoando na cabeça: "Eu amo  você."
Vinte, trinta, quarenta minutos passam. Nada. O livro não dava mais, só que a última prova do semestre, essa eu precisava fazer. Uma hora... parei de contar. Peguei o ônibus que veio lá da eternidade e fui esperançosa que desse tempo. Nem olho o relógio. Desço correndo em direção à faculdade. Cheguei e... a porta estava fechada. Um nó na garganta vai se formando, assim como lágrimas nos olhos... mas ele me ama, o que mais importa? Isso deve ter uma solução mesmo.
Decidi ir andando um bom trecho a pé, só pra ouvir mais aquela voz ecoando: "Eu amo você". Ando sorrindo como uma criança até que alguém puxa minha bolsa e leva tudo o que eu tinha, que era praticamente nada. Começo a formular um "que dia maldito..." que termina mesmo com "ele me ama, tudo está bem". Pego um ônibus qualquer, chego em casa. Tranco a porta do quarto e deito. "Eu amo você" ecoando por toda parte. Sorrio durante minutos. Vou sorrindo até que paro. Uma pontada no coração e um semblante de tristeza tomam a cena. E eu digo: "Ele me ama... mas até quando?".
Então durmo, enquanto o vento uiva em minha janela a tragédia do amor.

Um comentário:

  1. Flui mui naturalmente, pequenos poemas em prosa..

    Cativante, delicado, terno.

    um beijo, me ganhastes.xD

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